sábado, 26 de junho de 2010

o singular de 'mim'


Às vezes simplesmente não sei o que te dizer. Sei que achas estranho, porque desde sempre fui dotada de uma grande capacidade de comunicação e sempre conversei até com o senhor que esperava atrás de mim na fila da padaria, mas a verdade é que às vezes dou por mim sem ter o que te dizer. Simplesmente sinto a garganta a fechar-se, e a voz claustrofóbica, relutante, nessa insegurança tola de não se saber exprimir. Apodera-se de mim um silêncio tão confortável e ao mesmo tempo tão aterrador... Imagino-nos velhinhos, num qualquer alpendre daqueles filmes americanos, sonhos idílicos de uma vida tão longa... E imagino-nos, quietos; tu a contares as nuvens de um céu mais azul do que nós nos lembravamos ser possível, e eu calada, imberbe, seca.

O singular de mim sempre aniquilou o plural de nós. Eu costumava dizer que era uma estrela do mar, que se autoreproduz e autosustenta, sozinha. Sozinha.

Sempre gostei de partilhar, mas nunca soube como manter alguém ao meu lado o tempo suficiente para o fazer. Sempre gostei de imaginar que teria um futuro, mas a cada presente que tentava construir sentia tudo a desmoronar-se, com aquela facilidade maléfica que um sopro tem de derrubar um castelo de cartas.

Nunca soube ser plural. Nunca me habituei a ter alguém, porque sempre me preenchi e transbordei de mim mesma, com tudo o que conseguia sugar da vida.

Por isso, meu querido, não me leves a mal quando te digo que não tenho nada para te dizer.

Tenho, isso sim, um medo sufocante que me percorre a espinha e me vem assombrar a cada noite, que me sussurra encostado ao pescoço, a ameaçar-me, o malvado; tenho um medo sufocante de que esses vazios de silêncio comecem a ser mais frequentes do que os risos e os toques e os olhares.. e que tudo se perca, quando nada se diz.

Tenho, isso sim, um medo sufocante de te perder... por não conseguir dizer, nesses silêncios, que simplesmete não falo não por não te querer bem, mas sim por te querer mais do que as palavras me permitem, ainda que eu seja feita delas.

sábado, 19 de junho de 2010

V, de volta


Estou um bocadinho frustrada hoje, por isso vou escrever sem nexo sobre o que me vier à mente, pode ser?
Saí de um exame de Literatura Portuguesa Contemporânea onde o limite era de cerca de duas paginas e meia e eu escrevi quase quatro; o exame já de si não era pequeno, e as duas horas eram redutoras… Aqui a Madame não acabou de passar o rascunho e está no abismo de reprovar e voltar a visitar outro enunciado na segunda fase. Bonito, hein?


Eu sou uma pessoa que escreve em sítios improváveis; no entanto não sou uma pessoa que escreva sobre coisas improváveis. Tive uma professora de Literatura Portuguesa que uma vez me disse que a palavra ‘coisa’ era a pior de toda a Língua Portuguesa, porque no fundo é dar um nome que nada significa a uma coisa que pode ter muito ou pouco significado.
É mesmo esse o problema do ser humano – a definição. Passamos tempos infinitos a tentar descobrir o que somos, o que vivemos, o que pensamos, o que partilhamos. Nunca ouviram dizer que muito boas relações acabam quando as pessoas se casam? Porque tentam dar-lhes um nome, porque as assinam num papel tosco para mostrar ao mundo em forma de aliança. No fundo é uma necessidade dos cruéis mortais: saber. Definir o que se sente, o que se é, o que se quer; estabelecer prioridades para não andar à deriva nem perder tempo, para não sermos os bobos da nossa própria corte. Um combate ao existencialismo, sem o qual no fundo não poderíamos ser criaturas pensantes, que existem.
É tudo um modo retorcido de carência, se formos a ver; esta necessidade tola de querer nomear algo, como que atribuindo-lhe maior importância consoante a sua categoria – e esperar que nos nomeiem de alguma coisa, para nos darem também a nós uma qualquer importância.
O ser humano é um bicho muito solitário.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

acta

se eu não falar convosco brevemente, não pensem que é por mal...
é mesmo porque a minha fragilidade está no auge
e eu não ando com paciência para a mínima coisa.

a culpa, claro está, é minha.
mas há-de passar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

broken

Quebrei as regras hoje.
Perfurei o coração com um ferro em chamas
e ri-me com sarcasmo ao não sentir a dor.
Vai-te embora.
Eu nunca te pedi para ficares
e isso não vai acontecer
só por que agora a tua alma é gémea da minha.
Não, não - eu vou embora.
Vou partir, quebrada,
pelas estradas povoadas
poeirentas
pertinentes...
eu não sei o caminho de volta a mim.
Padeço da doença estranha do ficar,
caprichosa de que me queiras
para que te possa negar
a pulsação dentro do corpo,
o vazio dentro da caixa.
Quebrei as regras hoje -
apercebi-me de que fico
simplesmente por que não tenho mais
onde me esperem.
Doença mórbida esta,
de não saber o que querer quando perguntam
nem o que perguntar quando nos querem.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

não sei o que querer quando perguntam, nem o que perguntar quando me querem...

Hoje lembrei-me. Lembrei-me de estar na aula de educação visual no nono ano e de estar a desenhar o logótipo de um bar que nós as quatro teríamos um dia, coisa de que falamos novamente este sábado. Lembrei-me do meu primeiro blind date e ri-me pela fragilidade das emoções - gostei tanto, tanto de ti. Lembrei-me de Londres, de ele se ter enfiado dentro de um armário e de ter reclamado dos 'trevos' na sande. Lembrei-me do outro que berrava à janela, lembrei-me dela que nos acompanhou até outras partes do mundo, e que agora já cá não está para ver os meus filhos, um dia. Lembrei-me de ter chorado por não querer ser menina das alianças do meu irmão. Lembrei-me da noite em que choramos os três, a ler Fernando Pessoa. Lembrei-me de dançar valsa e de que há fotos e vídeos - ainda não acredito que passei essas vergonhas. Lembrei-me dos teatros, dos textos lidos em voz alta na biblioteca, da vez em que me disseram 'continue a escrever e será melhor que muitos escritores'. Lembrei-me das paixões, uma por uma; do burburinho, das palpitações, da ansiedade na barriga. Lembrei-me do primeiro concerto a que fui, da primeira vez que vi neve. Lembrei-me de Roma, dos gelados, dos artistas. Lembrei-me dos europeus de Arpino e Sulmona. Lembrei-me da fotografia no jornal, da doçura de chegar de viagem e ter tanto para contar. Lembrei-me da noite de S. João, em que passei a melhor amiga por guardar um segredo como tesouro. Lembrei-me dos amigos - dos que fiz, mantive, perdi, reencontrei. Lembrei-me da primeira vez que fui à faculdade. Lembrei-me de a ter recusado três vezes no hi5 e de agora falar com ela sobre tudo. Lembrei-me de ter pensado que o mundo ia acabar quando não escolhi Jornalismo. Lembrei-me da primeira vez que disseram 'andam sempre as quatro!'. Lembrei-me das noitadas a estudar, dos Homens de Amanhã. Lembrei-me da primeira vez em que ajudei o meu sobrinho a fazer os tpc, e da primeira vez em que peguei nos pequerruxos ao colo. Lembrei-me dos meus 18 anos - agora sei que foi o ano mais importante de todos. Lembrei-me de quando via as Navegantes da Lua e sonhava casaar com o Mascarado. Lembrei-me do baile de finalistas que não tive mas que ela me deu, porque no final... estamos sempre juntas. Lembrei-me de ter seis anos e ter recebido um chocolate da professora, por ter conseguido ler a palavra 'pássaros'. Lembrei-me do dia em que o meu sobrinho nasceu; eu era tão pequenina. Lembrei-me de como eram as mensagens de 'bom dia' dele que me faziam aguentar todos os dias. Lembrei-me do livro de curso, das palavras que se vão... Lembrei-me das tardes no sofá dela, a ver séries e devorar tudo o que havia na dispensa. Lembrei-me de ter casado no recreio na escola, e terem atirado arroz em forma de benção - e do significado que Arroz tem para nós, agora. Lembrei-me da minha primeira entrevista de emprego, e de estar sentada no banco do palácio de cristal, quando me ligaram de outro sítio, para uma outra entrevista. Lembrei-me da primeira rosa que me ofereceram, lembrei-me daquele que ia desaparecer mas afinal não. Lembrei-me dos almoços em casa dela, às sextas feiras: pizza e um filme. Lembrei-me da carta que entreguei, quando o pedi para Padrinho. Lembrei-me dos muros, das pedras, da varanda, do vinho, da fonte, das faixas, da t-shirt, das saudações, da capa - agora no armário. Lembrei-me do primeiro romance que escrevi, e das alturas em que não acreditavam que era eu que escrevia o que quer que fosse. Lembrei-me de ter treze anos e ler Florbela Espanca. Lembrei-me da minha cadela, dos meus peixinhos, dos meus hamsters. Lembrei-me da minha avó. Lembrei-me de que cresci sem me aperceber.
Vinte anos, quase quase.
(estou repetitiva, de tão velha, vejam só).

domingo, 6 de junho de 2010

corpo a corpo


Podes pensar que fui eu que perdi, mas olha outra vez.
Encara o espelho; vais ver que não é isso que ele te diz.
Eu não perdi. Eu segui em frente, e escolhi não olhar para trás enquanto tu ficavas parado, na rua, a ver a vida passar por ti e sem acreditares que eu me tinha ido embora.
Eu não perdi. Porque isto não era um jogo, apesar de sempre termos jogado. Porque isto não era uma batalha, apesar de sempre termos combatido.
Agora que parti, estou distante. De mim, de ti, do que foi o nós. Observo tudo o que passou e só consigo sentir rancor por ter ficado tanto tempo, por ter resistido tanto tempo, por ter tentado amar-te tanto tempo.
Eu queria dar-te o mundo. Eu jurei vezes sem conta que nunca te juraria nada, mas no fundo era essa a promessa que eu fazia comigo mesma: dar-te o mundo, porque tu não merecias menos do que isso. Dar-te o mundo, porque eu sabia que amar só fazia sentido se ao nos dividirmos nos conseguíssemos multiplicar. Perdemos-nos nas contas... Mas eu não perdi.
Não perdi porque fiquei sempre, porque te abracei sempre, porque tentei sempre.
No dia em que vimos que o fim tinha chegado, esbocei um sorriso quando me pediste para fazer as malas. Elas estiveram sempre feitas, debaixo da cama, para uma eventualidade como esta. Talvez eu nunca tenha tido intenções de ficar.
E por isso, por isso é que eu não perdi.
Tu é que, sem te aperceberes, me perdeste.

terça-feira, 1 de junho de 2010

(do nada)

Dois passos para trás e esta não é a minha vida.
Assisto a tudo com o olhar pesado de quem vê uma peça de teatro. Um filme quiçá. Um drama.
A banda sonora de péssima qualidade, péssima luz, péssimos actores.
Isto porque ninguém sabe mentir, ninguém me sabe fazer feliz.
O tempo fugiu-me e apanhou-me demasiado preguiçosa para ir atrás dele.
Acordei uma manhã e na rodilha dos lençóis estava a desilusão.
Como eu gostava de sair porta fora e ter um mundo diferente no degrau da escada.
Novos rostos sem os mesmos defeitos, com os mesmos amores, talvez os mesmos ódios.

Nunca percebi a magia do pôr do sol, mas no entanto sempre gostei de o ver nascer.
Talvez seja por que me custa sempre dizer adeus.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

carta II




*
Olha para mim. Não te atrevas a fazer de conta que não estou aqui, tu sabes que eu existo.
Já fui o doce nos teus lábios, a secura das palavras. Em tempos percorri-te, eléctrica, fui o sexo no teu corpo. Deixaste-me ser a sombra dos teus passos, a brisa nas portas que se abriam à nossa passagem.
Não te atrevas a fazer de que conta que não estou aqui, tu sabes que não fui embora ainda.
Pesa-me em memórias o crucifixo onde me enalteceste. Eu nunca disse que sofreria por ti. Nunca te prometi a eternidade, nem tão pouco o presente instantâneo de uma mousse de chocolate. Eu não sou de fazer promessas, pelo medo horrendo da culpa por não as ter cumprido. Olha para mim. Não chores. Não te atrevas.
Já foste poesia nas minhas impressões digitais e estradas longas em noites de calor. A minha lareira em pleno inverno, sonhos a voar pela boca, adolescente. Foste a coisa mais pura que consegui construir, e ao mesmo tempo sinto-me corrompida por te chamar coisa.
Coisa. Coisa. Coisa.
Em tempos fui a faca e tu o talhante. Os corações de ambos à mercê da loucura. Mas tu safas-te sempre dessas misérias, és um gajo esperto. Por isso é que agora não te admito que me vires as costas.
Olha para mim. Não te atrevas a dizer-me que vais sempre recordar, tu sabes que o tempo esquece tudo. Não me mintas tão descaradamente; eu já fui o teu corpo, já vivi na tua mente, eu pertenci à tua voz.
Olha para mim, só. Porque eu só vou partir quando me olhares nos olhos e eu conseguir despachar para a tua alma o peso que carrego por ter chegado o fim. És a faca e o talhante agora.
Eu levo o coração.

sábado, 29 de maio de 2010

the woman in a red dress

Não me digas isso. Odeio quando fazes de conta que não ouves o que te digo e falas por cima do que já pronunciei, como uma estação do ano que vem para suceder a outra. Não, não te vou deixar ser o meu inverno. Isto porque não te vou deixar ser coisa nenhuma na minha vida, ocupa-espaço, parasita de amor. Não me digas isso, já te disse. Eu é que escolho qual a melhor altura para bater a porta e te virar as costas; eu é que decido quando viro a página deste livro maldito que ando a escrever há anos a fio.

Sai daqui, não me toques. Esquece que respiro o mesmo ar que tu, nesta mesma cidade, mesma casa, mesmo quarto, cama, palco. Esquece o que vivemos, porque isto não é vida. Esquece o que tivemos, porque a possessão destrói os amantes; viste como tudo se foi num instante? Como deixamos de sentir o cheiro do mar pela manhã? E como deixamos de ouvir o trânsito enquanto procriávamos sem risco de futuras crias, embalados no ritmo frenético da cidade que nos engolia? Viste? Não, não viste. Nunca viste as dores dos sonhos que plantavas; era sempre eu que estava lá para as colher.

Não me digas isso, não te atrevas. Odeio quando me ignoras, quando elevas o volume e fazes com que a minha fala se perca no eco da tua – como eu sempre me perdi em ti; ou quando fazes uma pausa e dizes, com essa voz séria, irónica, filha da mãe, algo… que sabes que me vai recortar o coração, pelo tracejado, com tesouras de bicos.

Não me digas isso. Não digas, porque sabes que eu fico. Mais um dia, que são todos os outros dias. Não digas, porque sabes que eu não posso ouvir-te dizer isso. Não. Não. Não digas. Não digas por favor; dói tanto ouvir-te dizer o que eu sei que não é meu, que não possuo, que não criei. É desta possessão louca que te falava: mata os amantes, tristes sonhadores da rebeldia. Dói tanto. Porque me perco de mim, deste limite, deste tracejado. Porque não sei onde tu começas, se afinal de contas eu não termino. Não digas isso.
Fazes a pausa longa, colocas a voz. ‘Mas… eu amo-te.’
Foda-se.


quinta-feira, 27 de maio de 2010

do bloquinho

está escuro
e no fundo dos teus olhos
reside a verdade
propícia dos momentos.
o tempo foge-nos
como vento leve
que esbofeteia a cara
incrédula
e com o nascer do dia
apercebemos-nos do que já foi.

tomando como palco a cama
serrena
pura
corrompível
imutável
a seda que me percorre o toque
são pétalas da rosa
que trago tatuada nas horas da juventude
e o sangue dos espinhos
é o som da tua voz.

está escuro
e no fundo dos teus olhos
reside a verdade
propícia dos momentos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

'se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que so dizem sim'


Tenho uma taça do Snoopy de quando era bebé e é lá que como os cereais. Acordo normalmente muito mal disposta - não convém falaram muito para mim logo de manhã. Os meus óculos de sol são muitas vezes os meus melhores amigos e sou assim tão branquinha porque não faço praia. Visto roupa tendencialmente escura - as minhas amigas gostam de me desafiar a vestir verde alface; não vai acontecer, meninas. Durmo muito. Ou melhor, durmo habitualmente pouco e quando posso durmo muito. Tenho horários esquisitos; sou um bocado desregulada. Adoro noites de verão em que percorro o Porto com conversas sem sentido e que levam a muitos sentidos. Safari Laranja. Azeitonas. Piolho. Escrevo quando preciso de protecção. Preciso muito de música, nem que seja para me anestesiar do mundo - não consigo andar na rua sem fones nos ouvidos. Preciso de silêncio quando me quero concentrar, mas mal entro em casa ligo logo a televisão. Não vivo sem telemóvel. Nem sem chocolate. Tenho pouca paciência para discussões ou pessoas complicadas; eu não sou simples, mas simplifico. Tenho carteiras com fadas e borboletas e vou armar-me em pita quando for ver o Michael Bublé em Novembro - são coisas da vida. Estou a acabar o segundo ano da minha licenciatura, tenho três sobrinhos. Há ainda um emprego a part-time e uma segunda alma chamada Praxe que me ocupa cerca de 9meses no ano. Encontrei uma alma gémea e fiz dele meu Padrinho. Encontrei uma hierarquia e fiz deles meus. A minha prima de 20anos é a minha querida irmã. Tenho poucos amigos, amigos de há vinte anos, amigos de há sete, amigos de há cinco, amigos de há dois- todos diferentes, e por isso aprendo com cada um. Sou uma das quatro... e adoro. Nunca me consigo deitar antes da uma da manhã e é por isso que tenho sempre olheiras. Ah, não esquecer os caracóis. E o riso histérico. Não esquecer também a agenda cheia mas sempre com tempo para mais uma coisinha. Sou miúda de cafés. De conversas. De risos. Sou miúda até de silêncios, se tiver de ser. De noitadas se houver espírito, de ficar na cama enroscada em cobertores se a alma precisar. Tenho quase vinte anos e penduro os meus brincos num quadro de cortiça. Queria tanto viajar mais e trazer a alma renovada a cada regresso. Adoro piercings. Sou demasiado medricas para fazer uma tatuagem. Não tenho animais - o tempo às vezes pode ser uma desculpa horrível. Mas neste quarto desarrumado ha sempre espaço para mais uma foto de mais um momento, de mais uma pessoa, de mais um (des)amor.

(diz)amor


eu sinto borboletas a cuspir

dentro de mim.

trazem nas asas um polén alheio

que me envenena o corpo -

saiam.

eu não vos disse que me queria apaixonar;

e a quem me fez nem sequer disse que me queria -

ponto.

esvoacem das minhas entranhas -

fora.

não corrompam a frieza que esculpi;

trago uma pedra no regaço

e é lá que guardo o amor.

a quem vier para me roubar,

atiro-lha à cabeça -

não acredito que me faça falta.






domingo, 23 de maio de 2010

saturday night fever


























é nas noites de calor que estamos mais predispostos a pensar.
pensar leva-nos a recordar, que por sua vez nos faz doer.
ontem foi uma noite de calor.
o centro da cidade estava agitado, cheio, num corropio. copos de cerveja na mão, sorrisos, gargalhadas, roupas frescas. um concerto em plena rua. um concerto em pleno cérebro.
é nas noites de calor que estamos mais predispostos a pensar.
e depois passamos por uma casa e alguém atira uma garrafa de vidro por uma janela.
podiam ter acertado em nós. hospital - traumatismo - hemorragia - coisa grave - vida suspensa. possivel amnesia?
há mulheres que em casamentos se debatem para ver quem apanha o bouquet.
ontem, três gaiatas só queriam apanhar com uma garrafa nas trombas.



era tão mais fácil, não era?
e havia uma outra que estava a vibrar com o calor e por isso fazia de conta que não via a depressão a fazer-lhe sombra.
adoro estas noites de calor, já vos tinha dito?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

partir


Sou um tigre
mas nunca to disse
deixei antes que o descobrisses.

Trouxe de volta ao meu mundo alado
o corpo sibilante, apaixonado;
Menti às noites o que o dia amava
e no silêncio tudo te contava;
porque sabia que tu não me ouvias
no porto preso quando em mim morrias,
e o teu corpo aceso adormecias...

Eu sou um tigre
mas nunca to disse
E quando me fui, não te avisei...
cortei sem faca o laço que criei.

Não seria um tigre
se tu descobrisses.

terça-feira, 18 de maio de 2010


hoje encontrei-te. nos recantos de um pensamento posterior ao sentimento, estavas tu. não me lembrava de te ter guardado ali, com carinho para mais tarde te encontrar e desejar, sem o fervor tolo dos inocentes, rasgar, olhar de relance mais uma vez e dobrar em quatro partes para guardar no bolso.


hoje revisitei-te. estavas conjugado nos meus poros e apercebi-me de que todos os dias corro em direcção a ti. é assustador o que uma mulher pode sentir quando assume que não sente. é um vazio imenso que ecoa na solidão de um corpo vagabundo, e todos ouvem esse clamor menos o corpo que berra. todos sabem, todos comentam, todos choram - menos o corpo, porque ele não está ali.


hoje tu também não estavas ali. mais uma vez não estavas, mais uma vez não senti a tua falta. porque o corpo não sente nem chora, neste não saber, nesta alma protegida de armadura, nesta alma dura, nesta alma nua.


hoje perdi-te. mais uma vez reconheço que te perdi num daqueles momentos em que te poderia ter ganho, se simplesmente tivesse dito mais do que o silêncio me permitiu. mais uma vez reconheço que te perdi porque nunca quiseste que te ganhasse, porque te querias perdido. perdi-te porque nem a mim me encontrei.

e por isso mesmo hoje, quando te


encontrei,

revisitei

e perdi,

porque não estavas,


apercebi-me de que quando queremos algo, tem de ser com muita muita força. para que todos saibam que o queremos. para que o que queremos nos queira. para que o nosso corpo saiba, para que o nosso corpo sinta, para que o nosso corpo chore.


hoje a minha mãe lembrou-me de que faltam exactamente dois meses para fazer vinte anos.
e não, não estou nostálgica. estou sozinha.

sábado, 15 de maio de 2010

do que se sente por estes lados

mas que filha da puta. vai-se a ver e já nada é como dantes. as coisas mudam, desvanecem-se. vai-se a ver e o moço já nem gosta dela ou ela anda enrolada com outro. vai-se a ver e já tá prenha de um sonho moribundo ou é já falácia de um futuro promissor. filha da puta é o que é. anda uma pessoa a construir castelos de sonhos para os vendavais os transformarem em barracos e para os pássaros fazerem ninhos nas caldeiras de almas puras. vai-se a ver e já não é nada do que se tinha pensado, já não vai pra faculdade nem morar no estrangeiro. vai-se a ver e vai trabalhar a servir as mesas e a escrever poemas nos talões dos clientes, escrava de um retrato pior que um reflexo de espelho partido. filha da puta. filha da puta. anda-se a maltratar as sombras, a pensar que o sol quente nos enriquece, e afinal todo aquele glamour dourado é falso, insípido, desprecioso, maltrapilha. anda-se a plantar dores para colher ensinamentos, mas no fim são tudo ervas daninhas da idade. filha da puta. mesmo filha da puta. vai-se a ver e a boa moça tem duas caras que não conjugam, e público que não sabe a que cara assistir, qual ecrã de televisão. às tantas voltam os emigrantes retornados da ilha do esquecimento por esquecer... e vai-se a ver e volta-se ao passado, em vez de se prosseguir do presente para o futuro, como nos ensinaram os paizinhos. olha-me que filha da puta! vai-se a ver e já tem bilhete de comboio para sítio nenhum, com escala incerta em parte alguma. vai-se a ver e deixou uma carta sem remetente nem destinatário, com as verdades todas do que sente e do que não sente, tão rídicula, tão parvinha, tão sem sentido - tudo tão sem sentido.... vai-se a ver, e é mesmo só isso que podemos levar desta vida filha da puta.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

balançar


Agarras a minha mão
com a tua mão
e prendes-me a dizer
que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer, mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração...
[Mafalda Veiga, Balançar]
Passou mais de uma semana mas continuo sem conseguir dizer nada de jeito.
As palavras só saem quando não conseguimos exprimir o que sentimos e, por isso, temos de recorrer a elas; mas o meu sorriso, as minhas lágrimas... exprimiram tudo nestes dias.
Por isso não tenho muito a dizer.
Arroz.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

azul do mar profundo

Se virem os posts de há um ano atrás, percebem que está a chegar 'aquela' altura do ano.
Talvez seja por isso que não consigo escrever.

23 de Abril de 2009



Demasiadas lágrimas na semana que se avizinha.
O derradeiro Salvé.
Um novo Nós - um novo Eu que se inicia.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

femme fatale


Gostava de saber exactamente o que dizer em certas e determinadas situações.
Ser o tipo de mulher que reage bem ou mal, mas que reage.
Ter o à-vontade e a arrogância inevitáveis de um par de saltos altos.
Um baton bem assente nos lábios. O olhar fatal que tudo diz.
Gostava de saber exactamente que conclusões tirar de cada momento.
De não ser a miúda que ri para o vazio e chora num quarto escuro.
De não ter fantasmas no armário, ainda pra mais fantasmas de outros - pois apesar de ser mal arrumada, já os expulsei a todos. Gostava de ter tudo irreprensivelmente perfeito, qual Bree das Donas de Casa Desesperadas; cabelo alinhado, rimmel intacto, meias de vidro sem foguetes.
Caramba, o que o sono me faz.
Quero ser outra pessoa, sim?

domingo, 18 de abril de 2010

run run run, catch me if you can can can

Estou sentada na beira da floreira, em frente à minha porta. Esqueci-me da chave e tenho preguiça de tocar à campaínha de um vizinho. Vou esperar que chegue alguém para me deixar entrar.
Não estou na berma do passeio mas é como se estivesse. Estou numa berma qualquer, novamente num limbo, num impasse. E não sei muito bem se entro, se não entro, se espero pela chave, se peço que me abram a porta, se vou esperar para um café até que chegue a minha chave. Isto são tudo metáforas, porque eu sempre fui miúda de as usar.
Não discuto, raramente converso de assuntos que me incomodem, não sou lá muito directa. Fecho-me num casulo, preciso tanto de alguém. Sou mimalha, quero atenção; mas ao mesmo tempo, orgulhosa, não a peço. Não reclamo o que é meu porque nunca estive verdadeiramente numa situação de posse. Não sei muito bem o que estou a fazer, mesmo quando afirmo que não quero dar nomes às coisas.
Entre um batido de café e um prato de massa tagliatelle, numa noite destas lá ouvi uma amiga de anos sussurrar entre gargalhadas 'a tua vida amorosa é uma merda'.
Eu sei que ninguém tem de me aturar. Mas eu também não tenho de aturar ninguém.