quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

'assim'

O que fazer quando o mundo nos faz parar e ao mesmo tempo nos impulsiona para continuar a andar, sem sequer olhar para as sombras do que fomos ou sentimos ou quisemos? O que fazer? – é a maior e mais irregular questão que uma mulher pode colocar. O que fazer quando um collant se rasga, o que fazer com o rimmel borratado, o que fazer com a nódoa na blusa perfeita, o que fazer com a carteira de fecho rebentado, o sapato sujo com lama, o brinco que perdeu uma missanga? O que fazer com um coração partido? Pior do que isso, o que fazer com um coração fora do sítio?
Há sempre sítio para tudo; e quando uma mulher organizada se vê sem sítio onde existir, torna-se complicado imaginar a nossa vida, a nossa mente dividida em prateleiras ilógicas de sentimentos repugnados. Mas é isso, exactamente isso, que acontece. Tudo se subdivide, tudo se estagna e ao mesmo tempo revoluciona, numa confusão de átomos alcoólicos e irresistíveis.
Uma garganta rouca, um cigarro travado. Estava no quarto às escuras, meramente iluminado pela luz pública que penetrava nas cortinas, e só se via o pontinho laranja, iluminando o fumo, no meio da multidão vazia da divisão. Marta estava sentada à chinês, a olhar os pés calejados de ruas por percorrer. Um copo de Martini pousado na colcha da cama, apoiado nas pernas; um telemóvel na mão esquerda, a executar uma chamada em alta voz e, na outra mão, o cigarro cintilante. A cinza no chão fazia-a lembrar-se da cara da mãe, tipicamente galinácea, ‘não vás morar sozinha, não tão cedo’. Um toque, dois toques. Ele atendeu, com a voz irritada de quem está a meio de uma festa e não quer ser interrompido por um telemóvel. Ela suprimiu o choro, travou o cigarro e disse

‘Só precisava de desabafar’.



1 comentário:

Voluptia disse...

Pelo menos ela ligou e ele atendeu. Mesmo com a voz irritada.