segunda-feira, 8 de novembro de 2010

back on track

Fito o telemóvel. Daqui a duas horas estou a trabalhar.
Olho em frente e o bilhete do Bublé já não está preso com um íman na estrutura metálica da secretária. Londres já passou, tenho aqui o iman parolo em forma de coração que diz LONDON, para mo lembrar. A música de fundo é Brandon Flowers. E, como quase sempre, está a chover lá fora e por isso escrevo.
Já fez mais de um mês que aqui vim, depois da última vez que fui ao cinema - Hollywood sucks.
Provavelmente não tenho escrito porque além de me faltar o tempo, falta-me mais qualquer coisa que não sei o que é. Inspiração? Nunca acreditei muito nisso. Vontade de desabafar?
Acho que os amigos têm desempenhado um papel crucial nisso. A menina incompreendida está a conseguir comunicar para além do papel - well done.
Sexta feira, é Barcelona.
E quem sabe, passagem de ano na neve.
Uns dias de inverno o na Alemanha, páscoa em Marrocos.
O mundo é o limite.

domingo, 3 de outubro de 2010

momento *grey's anatomy*

sentir demais. pensar demais. querer deixar de sentir.
nunca consegui ser eu própria, e talvez seja por isso que continuo a dizer em voz alta que o que mais me enerva é não me conseguir encontrar. mentira - eu não estou perdida. se há coisa que eu sei bem é dizer o que quero, o que odeio, o que sonho e o que me desilude. o que eu ainda não aprendi é a conseguir concretizá-lo.
uma lágrima. duas lágrimas. puta que pariu hollywood e o cinema barato, mais o sensacionalismo que ilude as gajas. como diria uma amiga, 'nós as gajas...'... e depois vem uma longa pausa. nem nós próprias nos queremos entender, quanto mais que um homem nos entenda.
está a chover tanto la fora e eu só me consigo lembrar de que tenho 20 anos. estúpido, não é, o poder de um número? - revela-nos a verdadeira força das expectativas. ri-se na nossa cara e dos planos que tinhamos e diz ''vês? já tens vinte anos e ainda estás aqui."
esta coisa das relações dá muito trabalho. dá tanto trabalho que eu nunca tive (verdadeiramente?) nenhuma e já estou exausta. é como se a nossa vida fosse um molho de chaves e cada uma delas uma decisão. uma porta (analogia parva). uma escolha (analogia ainda mais parva). e no fundo somos (sou) só mais uma daquelas mulheres com carteira grande onde tudo se perde e o molho de chaves rebola, rebola... e acabamos (acabo) por ficar à chuva à porta de casa à procura das chaves para entrar.
não há coisa mais frustrante do que viver de sonhos. senti-los, respirá-los. poder tocar-lhes ao acordar, senti-los no sabor de um café ou de uma bolacha maria. agarrar os sonhos, espreme-los. revivê-los nas coisas básicas, harmonizando-nos com eles. sermos repletos de sonhos é a coisa mais agonizante, porque vivemos lado a lado com a certeza de não os concretizarmos.
e depois vem aquele momento em que olhamos para o lado... e não está lá ninguém.
e é mais uma noite com a chuva lá fora, as chaves tombadas na carteira grande, o telemóvel em silêncio, uma qualquer revista feminina aberta ao acaso, 'namorar reduz o stress', mais pernas cansadas, mais dor de cabeça, talvez mais um chá (ou um copo de leite frio), mais uma cama de solteira, uns lençóis enternecedores. mais uma memória, e outra, uma gargalhada no vazio, novamente o sarcasmo da idade a lembrar-nos do que juramos alcançar e ainda não chegou. e um novo dia. repleto, repleto de sonhos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

'you' make it so hard

I'm waiting for something, always waiting
Feeling nothing, wondering if it'll ever change
Maroon5, Give a Little More



hoje em dia temos de menos, por pensarmos de mais.
complicamos ao querer simplificar, com esta coisa toda de querer pôr tudo em pratos limpos. no fundo, trata-se de não querer arcar com as culpas - resolvemos exaustivamente os embróglios que temos guardados na dispensa, para que mais tarde não nos acusem.
'eu tentei' é frase predilecta; 'eu tentei' resolver as coisas a bem; 'eu tentei' falar, ouvir, problematizar; 'eu tentei' e não deu... mas a culpa não é minha. a culpa é do outro que não tentou. a culpa é do outro que não falou, que não sabe, que não resolve, que tem a vida em suspenso.

hoje em dia temos de menos, por pensarmos de mais. no tempo em que os amores se faziam com uma ida ao bailarico e um cochicho entre amigos... aí sim, era simples. dois dias depois já iam comer um gelado juntos, e já se falava em boda pelo bairro. um mês depois ele já frequentava a casa aos domingos para o almoço de família, e vai na volta já se começava a planear o enxuval. meio ano e havia casamento, ano e meio e crianças a bordo. era assim, simples, exacto.
no fundo não pensavam muito em casar, em amar, em 'fazer vida' - talvez porque o julgassem inevitável.

hoje em dia, iniciar uma relação amorosa é quase como entrar numa loja de doces; tanta escolha obriga-nos a ponderar qual será o melhor; entre ponderar e não ponderar vai-se a ver e passam anos, até que depois nos apercebemos de que é bem mais simples estar sozinho às vezes. o que mais custa é quando sentimos falta do doce... aquele doce que iamos comprar mas demoramos muito para escolher, sabem? às vezes sentimos falta dele; porque estamos tão azedos de estar sós, que não nos apercebemos dos anos passarem por nós.

hoje em dia temos de menos, por pensarmos de mais.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

outubro

.LONDON.

está na hora de voltar
*

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

if you get down, get up, oh oh


descobri uma nova faceta: nao consigo escrever se estiver vazia, e muito menos se estiver demasiado preenchida.

as emoções saem em catadupa e nada se acerta. as palavras não fazem sentido, o raciocinio nao raciociona, os pensamentos evaporam-se. o corpo, miserável, continua a passar pelos dias, porque sabe que não tem outra escolha. mas a alma, que sabe que já foi tão mais feita de céu, não aceita, e cambaleia, faz o corpo tombar, faz os dias correrem solitários.

a música ao fundo é melancólia, companheira de horas mortas, e de tudo mais que o tempo já matou. a secura no olhar enerva-me tanto que já nem o espelho me aceita.

sinto as paredes contorcerem-se, como que a implorarem-me para sair daqui e ir viver a minha vida, finalmente.

pára de esconder o coração, pára.

pára de chorar em silêncio, pára.

sinto o chão rodopiar, anseio pelo desmaio que não chega...porque este rodopio tornou-se o habitual, face ao caminho que antes era certeiro.

estou rodeada de memórias e não posso deixar que elas me sufoquem, porque eu sei que elas já me esqueceram.

e é por isto; é por isto que não consigo escrever.

porque estou demasiado preenchida de tanto que me faz mal, que não consigo preencher-me de nada que me faça bem.

tenho um exame quinta feira, são três da manhã, estou a ouvir Brandi Carlile e tenho um pacote de bolachas e uma caneca de leite em cima da secretária. os apontamentos estão espalhados em cima da cama, já estive a ler textos antigos, tenho algumas janelas de msn abertas e estou agora neste preciso momento a fitar o meu bilhete para o concerto do Bublé. vai ser uma longa noite.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

I could really use a wish right now

estás a ouvir-me chamar por ti?
eu sei que custa ler-me. sou um livro aberto, mas escrito de trás pra frente e de pernas para o ar, história onde é preciso saltar umas páginas para seguir o raciocinio tresloucado, fio condutor da alma. sou estranha, sempre mo disseram e eu sempre encarei isso como um elogio, no fundo, por que a arrogância de querer ser diferente sempre me correu nas veias. tenho saudades da inocência, do tempo em que as coisas eram fáceis porque não as víamos complicadas, porque lutavamos para as ter, sem pensarmos o quão dificil seria se perdessemos.
tenho saudades de conseguir ser sincera, sem me esconder atrás de três projecções do corpo que agora carrego como um escudo protector, e tenho ainda mais saudades do tempo em que era transparente... e em que, apesar de complicada, entrava numa sala e clamava 'eu sou assim'.
mas consegues ouvir-me ou não?
não consegues. o tempo faz sempre questão de correr mais depressa do que desejamos, ou mais devagar do que nos convem. apesar de ter aprendido muitos truques para que nenhuma bala atravessasse este corpo-escudo, nunca consegui aprender o truque de enganar o tempo. de o fazer passar mais rápido para que também a dor passasse mais rápido. de o fazer passar sem que me apercebesse, para que também não te apercebesse.
nunca pensei que custasse descolar um corpo do meu, se no fundo era só um corpo.
acho que já não estava habituada a percorrer-me no escuro e então acabei por me perder, porque deixei o mapa no armário, escondido, para que mais ninguém tentasse essa ousadia de percorrer esta pessoa, tão estranha.
quis tanto esconder de ti o caminho, que eu própria me perdi nele.
não me consegues ouvir, porque no fundo eu sei que não estou a chamar por ti.
mas queria. queria tanto.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

antes de sair de casa....

ando vazia. o corpo estranha já não transbordar de tudo o que o fazia viver, e arrasta-se pelos dias como se ao vê-los passar depressa, mais e melhor pudesse vir num outro futuro.
encontro nas paredes da casa onde habito o eco das memórias que me fizeram ser eu.
olho as fotografias e rio-me do que já fui, certa de que o era. agora não sei.
acho que isto de ter a idade começada por um dois me anda a dar cabo dos fusíveis.
mas como muito bem disseram, daqui a um mês já andamos a cheirar a faculdade e não há tempo para divagações. trabalhar, trabalhar, trabalhar.
é o último ano: ano de me licenciar, ano de tirar a carta, ano de encerrar o capítulo negro.
é o último ano de faculdade. e vai ser um óptimo ano, a começar já em setembro.
e ainda que faltem mais de nove meses, sei que vai ser a melhor queima das fitas de sempre. ah pois vai.
*

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

all you dreamers, keep dreaming

Filho de uma prostituta engessada, és um inútil como a tua mãe.
Raios te partam se alguma vez mais me vais pôr a vista em cima. Nem sei como fui capaz de ser cangalheira da tua alma durante tanto tempo, sempre a percorrer as mesmas estradas esburacadas e imundas, sempre a mendigar, sempre com fome de tudo mais que a vida tinha para me oferecer e eu não podia receber porque estava presa a ti.
Foi burrice, agora eu sei. Deixei-me invadir por essa molenguice que enfraquece o carácter e que as mulheres gostam de apelidar de amor; quando dei por mim acordava a pensar em ti quando não te tinha a meu lado, e adormecia a falar contigo mesmo se estivesses longe de mim. Isto, meu querido, é amor. E eu sabia, porque dependia de ti como uma miúda depende de sorrisos para acreditar que o mundo é um lugar melhor. Dependia do teu corpo para entrelaçar o meu, dependia da tua energia para aguentar os meus dias, dependia do teu olhar para ver as coisas de um modo diferente. Dependia de ti para ser alguém diferente, porque há muito tempo que estava farta de ser só eu, sempre sozinha, sempre distante, sempre calculista e desconfiada, sempre sem sonhos.
Tu vieste para me levantar os pés do chão e fazer-me acreditar que ainda era possível flutuar, mesmo já não acreditando em contos de fadas. Vieste não sei de onde, e é para aí que quero que voltes agora. Vai. Raios te partam, vai.
Preciso de existir sozinha, sem te ter a roubar-me pedaços de alma diariamente, como cubos de açúcar para adoçar o teu café.
Mas a verdade é que me fazes falta.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

if you are but a dream


Há todo um swing no movimento. A pele é arrastada ao de leve, com carinho, quando a mão toca na face, quando ele mergulha nos olhos dela. Ela chora, ele não percebe. Os homens nunca percebem porque é que as mulheres choram em momentos de suposta alegria.
É inverno e a cidade clama calor. Dentro das casas vive-se, enquanto nas ruas se respira a morte dos sentimentos. Ela já não sabe para onde foi o amor e é por isso que chora. Procurou-o incessantemente enquanto ele esteve fora, e agora que ele chegou... nada mais existe.
São ele e ela, nas ruas, na cidade, no frio. Ele seca-lhe as lágrimas com um beijo e, como sempre fazia, beija-lhe a testa em sinal de maximo respeito. Quem visse de longe quase, quase podia jurar que viveriam felizes para sempre. Quem visse de longe, nada sabia decerto.
Ela estava linda - ele podia jurar que ela estava linda; nada tinha mudado. O rosto, mudo, contava histórias do tempo em que ele tinha estado ausente. Reconhecia cada pedaço da mulher que tinha ficado para trás, porque ela não tinha de facto desaparecido.
O que ele não sabia, no entanto, é que além da mulher que amava, outras mulheres tinham surgido em seu corpo, concretizando as vontades estranhas que as mulheres têm de se contorcer em voltas e revoltas, donas e senhoras de várias almas por esculpir. No olhar, ele viu fogo após as lágrimas. Um fogo que não conhecia, porque não estava lá antes. Antes, quando ele estava. Antes, quando eles eram eles. Antes, quando quem visse de longe podia mesmo jurar que viveriam felizes para sempre.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

statement



Às vezes gostava que as coisas fossem fáceis o suficiente para perceberes o que te quero dizer sem ter de falar - é tao bom quando alguém nos consegue ler nas entrelinhas e nos consegue adivinhar por muito oposto que o seu caracter seja do nosso.
Há pessoas que nos conhecem demasiado bem, que quase adivinham quando precisamos de endireitar o nosso pensamento.

E sim, um primeiro amor nunca se esquece. E o passado encontra-nos sempre, quando mais precisamos avançar no tempo rumo a um novo futuro - nem que seja só para nos lembrar do que já foi, para que não se volte a repetir. Porque, no fundo, é assim que funciona o mundo.
[2008]

divagações 'do espaço'


O mundo é muito pequeno. Minto. É demasiado pequeno.

Atropelamo-nos nas nossas emoções em plena avenida, corroemo-nos por dentro com as divergências de passado e futuro, ecoamos incertezas de coincidências maltrapilhas.

O mundo é muito, muito pequeno, de facto.

E, pior do que ele ser pequeno, é quando nós ainda ajudamos para que ele encolha mais um pouco. Escravos das coincidências, gostamos que tudo tenha o doce sabor do indefinido. Nem que seja forçado.

'Que engraçado encontrar-te por aqui' é sinónimo de 'até que enfim que apareceste, tenho andado a rondar este sitio há semanas'. E 'que engraçado, também adoro essa música' seria o equivalente a dizer 'eu sabia que gostavas, por isso fui ouvir também...'.

Seria o sinónimo e equivalente se os seres humanos fossem sinceros - outro ponto fulcral.

Não somos. O flirt tem por base a máscara, que por sua vez tem por base todo um historial de mentirinhas (inocentes, claro) que contamos ao outro e que acabamos por contar a nós próprios.

E sim: as mulheres são exímias na arte do flirt.

Podem nunca ter praticado desporto na vida, mas se engraçarem com o surfista lá vão elas todas atléticas pôr-se em cima de uma prancha, só para o gostosão ensinar como se faz - note-se que isto tem piada nos primeiros encontros, depois toda a encenação de acordar as seis da manhã 'para apanhar as melhores ondas' deixa de valer a pena, por muito bom que seja o sexo.

Podem odiar comidas exóticas ou cinema independente, mas vão sorrir quando engolirem algas salteadas no chop soy ou quando virem o último filme do realizador francês que apenas um terço da população nacional conhece, tudo porque acham piada ao intelectualóide que é amigo da prima do amigo.

Os homens, apesar de mais preguiçosos, deixam-se manipular ao início, para nós pensarmos que eles de facto são manipuláveis. Depois, armados em macho latino, enchem o peito de ar e, poderosos, batem o pé face às circunstâncias.

Resultado? Mulheres frustradas porque nenhum homem lhes preenche as medidas, com todas as suas esquisitices e hábitos inconcebíveis, e Homens que vêm nas mulheres bichos que falam porque adoram ouvir o som da sua voz, sem se importar com mais nada no mundo.

Mundo esse que é de facto muito muito pequeno. Minto. Demasiado pequeno.

É por isso que é preciso termos cuidado quando relembramos episódios antigos em voz alta, ou nos cruzamos com uma pessoa anteriormente importante na nossa vida - as paredes têm ouvidos, e além disso podem ter mãos, sorrisos, beijos, toques. E podem encontrar-nos, por muito que tentemos fugir - já que o mundo é de facto muito pequeno.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

cinco da manhã


às vezes pensamos que está tudo bem e depois verificamos que não está.
pensamos que tudo se resolve se deixarmos as coisas quietas no sítio, e que elas so voltarão para nos assombrar se formos remexer no enorme baú que é o passado. mas às vezes as coisas vêm ter conosco.
e mesmo por entre gargalhadas percebemos o que perdemos... e vemos na pessoa à nossa frente a oportunidade que se foi. depois recordamos por que é que foi. e é aí que começam as lágrimas. a típica auto-desculpa do 'não estou a chorar por tua causa', visto que, de facto, as lágrimas são despoletadas por um acontecimento, mas o choro por completo remonta a todas as vivências fracassadas. uma mulher que chora, não chora naquele momento por aquela razão; chora naquele momento por todas as razões e por todos os momentos.

às vezes pensamos que está tudo bem e depois verificamos que não está.
e depois percebemos que temos vinte anos, e se calhar é altura de parar de brincar às escondidas.
já chega.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

18.07.2010

.vinte.


Eu amo-te não tem utilidade.
Eu amo-te não tem lugar.
Eu amo-te não é uma frase: não transmite um sentido,
mas prende-se a uma situação limite: 'aquela em que o sujeito está suspenso numa relação especular com o outro'.
Ainda que se diga milhares de vezes, eu amo-te não entra no dicionário
(...)
Fragmentos de um Discurso Amoroso,
Roland Barthes

domingo, 18 de julho de 2010

vinte.

I write like
James Joyce

I Write Like by Mémoires, Mac journal software. Analyze your writing!




[obrigado tiago*]

terça-feira, 13 de julho de 2010

das relações


às vezes dá vontade de sentar um homem numa cadeira e tentar explicar-lhe que a mulher é um ser místico, oriundo de um microcosmos paralelo, que vive consoante as suas próprias regras e que faz parte da sociedade, é um facto, mas participa nela como bem lhe apetece e não como ele gostaria que ela participasse.
sim somos umas cabras. sim fazemos trinta por uma linha, manipulamos, recortamos corações com tesouras de bicos e penduramo-los em quadros de cortiça, quais souvenires. e no final ainda somos capazes de lhe chamar a ele cabrão e reunir as amigas em sessões de voodo anti-masculinidade. é verdade, fazemos o que queremos. já dizia a minha avó que uma mulher com um decote generoso e conversa dengosa consegue de um homem até a independência de um país.
e é por isso que para nós eles são considerados bichos básicos, criaturas rotineiras de quem apreendemos os hábitos para depois os sabermos contornar. falam de mulheres, futebol, cultura geral e coisas de que se possam orgulhar - a.k.a. carros, talentos, feitos, hobbies, sonhos. há dois tipos de mulher: a que é para casar e a que é para fechar num quarto. a primeira nunca poderá fazer o mesmo que faria a segunda, porque será um dia a mãe dos pimpolhos e figurará em retratos de família. e a segunda nunca poderia ser o que a primeira era, pelo simples facto de terem começado pelo fim da linha, e ser impossível inverter a marcha.
depois há os homens-menino, que vivem ao sabor do vento sem querer saber do amanhã. os homens-carreira, com projectos, atitude, futuro. os homens polvo, que se desdobram em vidas múltiplas e sobrevivem á base de segredos. os homens-só, que pensam que não precisam de mulheres para nada. os homens-filho, que vêm na namorada uma segunda mãe. os homens-fácil, que fazem com que começar e acabar o que quer que seja na sua vida seja constantemente... fácil. os homens-pai, que nasceram para constituir família. os homens-mundo, que experienciam cada dia e vivem como se cada decisão fosse uma viagem.
e depois há simplesmente os homens. aqueles que não conseguimos incluir em nenhuma categoria porque não conseguimos desvendar. habitualmente orgulhamos-nos de sermos nós a peça indecifrável do puzzle, mas a verdade é que a maioria das vezes complicamos só porque os achamos a eles complicados. ou porque simplificar não o vai fazer ficar.
'hoje em dia as pessoas já não querem relações, acho que é um problema social'.
em vez de nos tentarmos perceber devíamos antes olhar nos olhos, ver simplesmente aquilo a que nos estamos a entregar, aquilo que vai fazer também parte de nós.
assim já não haveria categorias, nem tampouco a necessidade de incluir um homem nelas para o descodificarmos e encontrarmos a maneira, quer de lhe dar a volta, quer de o fazer desaparecer da nossa vida - ou, quem sabe um dia, quando voltar a ser moda descomplicarmos e amarmos sem limites ou paredes falsas de orgulhos independentes, fazê-lo ficar.

domingo, 11 de julho de 2010

(sim, fui ao cinema ver uma comédia romântica)


é suposto ser fácil?
é que há muita gente, demasiada gente, que faz com que pareça fácil.
que é uma luta constante, já sabemos. que as pessoas não encaixam como peças, não é novidade. que temos de nos adaptar, ceder, aprender, moldar, criticar mas ouvir, repensar, ponderar, respirar fundo (ás vezes mesmo dar dois berros) acarinhar depois, procurar, fugir, desvendar, querer... sempre nos disseram que seria assim.
mas não, nunca nos disseram que seria tão dificil.
ou se disseram, não quisemos ouvir, quanto mais não fosse por que víamos outros a quem a vida corria feliz, simples, plena. quanto mais não fosse porque nos espetavam com a treta do principe encantado na cara e enquanto diziamos 'pash, isso é para falhadas', fungavamos na almofada a desejar um homem assim.
não é que seja fácil, é só que... ok, para algumas pessoas parece mesmo fácil. não é tão irritante assistirmos a um casal que termina as frases um do outro? ou um homem que oferece uma rosa só porque sim e não porque, como seria de esperar, fez asneiras e procura redenção?
não, não é que seja fácil, porque em algum momento todas nós já percebemos que não é.
mas às vezes é demasiado dificil sempre para a mesma pessoa.
ou talvez seja a pessoa que é sempre demasiado dificil.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

skin thin

todas as mulheres recordam o toque. podem esquecer as palavras, futéis, fáceis, quebradiças, vidros toscos plantadores de sorrisos, unhas cravadas no peito quando pronunciadas a seco, 'estás a magoar-me tanto'. todas as mulheres do mundo podem dizer que não se lembram da ocasião, da música que tocava ao fundo, se era dia ou noite, que roupa traziam vestida, como usavam o cabelo, se tinham maquilhagem ou se a chuva árida da alma a tinha já manchado, corrompido todas as certezas, 'pensei que sempre nos teríamos um ao outro'.
que horas eram, ainda havia 'tempo'? onde estavamos, o que fazíamos? fui eu ou tu quem foi embora?
o tempo, malvado, bom amigo, uísque, doce veneno que vem resgatar-nos das más memórias... desvanece também tantos pormenores que gostavamos de ver gravados, a ferro e fogo, polaroid honesta dos momentos, 'eu acreditava num futuro nosso'. o tempo vem contar-nos outra história, ao ouvido; apaga as más memórias, abraça-nos nas tormentas e à medida que vai passando... já passou. mas o toque, o toque nunca desvanece.
o toque é uma casa, onde tudo o resto habita. onde nos entregamos, reféns de sentimento, e nos deixamos ficar, aninhados, peças de sangue, amor, 'não me deixes aqui sozinha'.
sei que era de noite; talvez manhã? estavamos no carro; na praia, digo. foi ontem, de certeza, ou talvez há dois anos. eu era já uma mulher, mas sempre fui uma menina. saí disparada ou despediste-te de mim? tinha uma flor no cabelo, não me lembro se levava o cabelo apanhado.
releio as cinzas de todas as histórias em que alguém me teve e me pertenceu.
a cada palavra falta o sopro da verdade que a escreveu, pois o tempo alterou cada pormenor, sem piedade.
não se esquece o toque, porque além de moldar o corpo, alcança-nos as entranhas. e depois de entrar, cofre do peito, rasteja, implora, anseia - mas não sai, não, nunca sai, 'não acredito que te foste embora'.

sábado, 26 de junho de 2010

o singular de 'mim'


Às vezes simplesmente não sei o que te dizer. Sei que achas estranho, porque desde sempre fui dotada de uma grande capacidade de comunicação e sempre conversei até com o senhor que esperava atrás de mim na fila da padaria, mas a verdade é que às vezes dou por mim sem ter o que te dizer. Simplesmente sinto a garganta a fechar-se, e a voz claustrofóbica, relutante, nessa insegurança tola de não se saber exprimir. Apodera-se de mim um silêncio tão confortável e ao mesmo tempo tão aterrador... Imagino-nos velhinhos, num qualquer alpendre daqueles filmes americanos, sonhos idílicos de uma vida tão longa... E imagino-nos, quietos; tu a contares as nuvens de um céu mais azul do que nós nos lembravamos ser possível, e eu calada, imberbe, seca.

O singular de mim sempre aniquilou o plural de nós. Eu costumava dizer que era uma estrela do mar, que se autoreproduz e autosustenta, sozinha. Sozinha.

Sempre gostei de partilhar, mas nunca soube como manter alguém ao meu lado o tempo suficiente para o fazer. Sempre gostei de imaginar que teria um futuro, mas a cada presente que tentava construir sentia tudo a desmoronar-se, com aquela facilidade maléfica que um sopro tem de derrubar um castelo de cartas.

Nunca soube ser plural. Nunca me habituei a ter alguém, porque sempre me preenchi e transbordei de mim mesma, com tudo o que conseguia sugar da vida.

Por isso, meu querido, não me leves a mal quando te digo que não tenho nada para te dizer.

Tenho, isso sim, um medo sufocante que me percorre a espinha e me vem assombrar a cada noite, que me sussurra encostado ao pescoço, a ameaçar-me, o malvado; tenho um medo sufocante de que esses vazios de silêncio comecem a ser mais frequentes do que os risos e os toques e os olhares.. e que tudo se perca, quando nada se diz.

Tenho, isso sim, um medo sufocante de te perder... por não conseguir dizer, nesses silêncios, que simplesmete não falo não por não te querer bem, mas sim por te querer mais do que as palavras me permitem, ainda que eu seja feita delas.

sábado, 19 de junho de 2010

V, de volta


Estou um bocadinho frustrada hoje, por isso vou escrever sem nexo sobre o que me vier à mente, pode ser?
Saí de um exame de Literatura Portuguesa Contemporânea onde o limite era de cerca de duas paginas e meia e eu escrevi quase quatro; o exame já de si não era pequeno, e as duas horas eram redutoras… Aqui a Madame não acabou de passar o rascunho e está no abismo de reprovar e voltar a visitar outro enunciado na segunda fase. Bonito, hein?


Eu sou uma pessoa que escreve em sítios improváveis; no entanto não sou uma pessoa que escreva sobre coisas improváveis. Tive uma professora de Literatura Portuguesa que uma vez me disse que a palavra ‘coisa’ era a pior de toda a Língua Portuguesa, porque no fundo é dar um nome que nada significa a uma coisa que pode ter muito ou pouco significado.
É mesmo esse o problema do ser humano – a definição. Passamos tempos infinitos a tentar descobrir o que somos, o que vivemos, o que pensamos, o que partilhamos. Nunca ouviram dizer que muito boas relações acabam quando as pessoas se casam? Porque tentam dar-lhes um nome, porque as assinam num papel tosco para mostrar ao mundo em forma de aliança. No fundo é uma necessidade dos cruéis mortais: saber. Definir o que se sente, o que se é, o que se quer; estabelecer prioridades para não andar à deriva nem perder tempo, para não sermos os bobos da nossa própria corte. Um combate ao existencialismo, sem o qual no fundo não poderíamos ser criaturas pensantes, que existem.
É tudo um modo retorcido de carência, se formos a ver; esta necessidade tola de querer nomear algo, como que atribuindo-lhe maior importância consoante a sua categoria – e esperar que nos nomeiem de alguma coisa, para nos darem também a nós uma qualquer importância.
O ser humano é um bicho muito solitário.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

acta

se eu não falar convosco brevemente, não pensem que é por mal...
é mesmo porque a minha fragilidade está no auge
e eu não ando com paciência para a mínima coisa.

a culpa, claro está, é minha.
mas há-de passar.